A violência dos homens no futebol

Diversos

07/12/2009

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Pessoalmente eu não iria escrever nada sobre o assunto – não saberia dizer nada além do que já foi dito (e odeio ser repetitiva.) No entanto o fim do Brasileirão 09 me inspirou.

Luluzinhas

Fora o fato do Flamengo ter sido campeão outra coisa horrível aconteceu: uma guerra em Curitiba, onde o Coritiba jogou contra o Fluminense. Alguns torcedores Coxa-Branca ficaram realmente indignados com o fato do time cair para a Série B e resolveram destruir o próprio estádio e a cidade. Veja como ficou o estádio depois da guerra, no site da Globo.

Depois de ver a história se desenrolar fiquei com alguns pensamentos matutando na cabeça. Porém esses pensamentos só se “confirmaram” quando li um relato de um torcedor que estava no meio da muvuca. Para acompanhar o meu pensamento aproveite e veja o texto, postado no Ig.

Uma parte do texto diz assim:

“Centenas de homens, mulheres e crianças deitadas de bruços no chão do último andar do segundo anel do estádio. Parecia uma guerra. Crianças em pânico. [...] Algumas mulheres desesperadas com seus filhos queriam correr em direção à saída”

Eu não pude deixar de notar algo: a quantidade de mulheres que estava lá “fazendo” guerra. Vi o vídeo da batalha procurando por elas e não encontrei nenhuma. Aqueles homens que estavam invadindo o campo, mostrando a rôla, jogando cadeiras nos policiais, jogando placas de publicidade no juíz… esses são os homens que praticam a violência. Esses são os famosos homens “trogloditas” – que acreditam na violência e na humilhação gratuitas.

Que fique claro:  isso não é culpa do futebol em si – qualquer esporte que esse tipo de homem goste pode ser cenário para isso. Em alguns esportes a violência é quase regra. Também não é culpa do nosso país – a violência está presente, por incrível que pareça, até nos países super desenvolvidos. A violência ligada o esporte, por exemplo, é o motivo da existência dos Hooligans. E, claro, não é culpa dos torcedores do Coritiba, pois esse tipo de situação já aconteceu e acontece o tempo inteiro em todos os cantos do Brasil, com torcedores de todos os clubes.

Pois bem: esse mesmo tipo de homem é o que continua a violência dentro de casa. Talvez nem todos aqueles homens batam nas suas mulheres, mas sem dúvidas todos eles teriam coragem. Porque a violência, para eles, é a forma de se mostrar no controle.

Este homem destrói o estádio do próprio time para mostrar que ele não é só um espectador – é praticamente uma forma de punir o time. É uma forma de dizer: “não sou um mero espectador, olha o que faço com o seu estádio quando você cai para a série B!”

Este mesmo homem continua a violência em casa. Usa a violência para mostrar para a mulher quem manda na relação. Usa a violência para mostrar aos filhos quem manda na família.

Essa violência, raramente, é vista nas mulheres. Afinal somos mulheres: quando nosso time perde nós choramos, ficamos tristes e chateadas. Quando começa um guerra no estádio nós fugimos e nos abaixamos. E eu tenho muito orgulho de fazer isso! O que para esses homens é “covardia” eu chamo de “paz.” As mulheres são pacíficas e por isso viramos vítimas dos violentos. Se olharmos bem o pensamento tipicamente masculino-troglodita de poder e humilhação é o motivo de tanta violência em casa, nos estádios e no mundo.

Não são todos os homens que pensam assim, é claro. Mas eu poderia ficar horas escrevendo sobre instituições tipicamente masculinas (como o exército ou a indústria pornô) que, justamente por serem instituições masculinas, são baseadas no poder dos homens em cima de outros homens e mulheres – com muita violência e humilhação como partes essenciais.

Como não vejo uma forma de mudar isso só me resta deixar uma mensagem aos trogloditas: usar a violência para mostrar que você tem o poder não te leva a ter poder. Porque os jogadores vão continuar jogando do jeito que eles quiserem mesmo com a sua destruição do estádio. Porque os relacionamentos irão continuar tendo o poder dividido igualmente entre duas pessoas que se amam. Porque, insistindo na violência, você continuará sendo nada mais, nada menos, que um enorme loser. E, mesmo que aos poucos, está todo mundo se dando conta disso. Fique esperto.

Quando pensei em participar da Blogagem Coletiva eu gostaria de falar da violência “indireta” (psicológica) que acontece com todas as mulheres, todos os dias. Pequenos machismos, pequenas descriminações, pequenas imposições, pequenos subjulgamentos… porém sei que eu e outras mulheres podemos nos defender da violência psicológica com uma cabeça esclarecida e força de vontade.

Mas a violência nua a crua não sai da minha cabeça porque ela é “meio invisível.” A violência física contra uma mulher ainda é tão real e absurda quanto a violência nos estádios, e mesmo sendo condenada por todos ela é praticada por muitos. E contra um homem com uma placa de publicidade não há cabeça esclarecida que consiga se defender.

Ps1.: mesmo sendo doida por futebol não consigo agir como um homem no estádio. Não consigo xingar o juíz ou o técnico. Não consigo mandar a torcida do outro time ir tomar no cu. Não consigo deixar de achar que essas atitudes são violência e humilhação gratuitas.

Ps2.: ao falar de futebol não consigo deixar de lembrar que, quando eu era uma pimpolha, eu ficava indignada do Coritiba poder jogar contra o Paraná. Eu falava pro meu pai: mas o Paraná é o estado e Coritiba é a cidade! Não tem um campeonato pros estados e outro para as cidades? Um estado não pode jogar contra uma cidade! rs… demorou muito até eu conseguir entender a lógica da coisa.

4 Comentários

  1. %d 07UTC %B 07UTC %Y às %H:%M 06Mon, 07 Dec 2009 18:34:15 +000015. | Permalink

    Claudia, boa abordagem do tema. Até acredito que talvez existam mulheres que gostem da violência nos estádios, porém, quero acreditar que todas as pessoas que transformaram o jogo num palco absurdo de violência são minoria.
    Uma das coisas que deveriam ser feitas é punir o time. Não é culpa dos jogadores, mas só dessa maneira esses torcedores sentiriam na pele o quanto prejudicam seus times e o futebol brasileiro.

  2. %d 07UTC %B 07UTC %Y às %H:%M 06Mon, 07 Dec 2009 18:42:35 +000035. | Permalink

    “Porque, insistindo na violência, você continuará sendo nada mais, nada menos, que um enorme looser.”

    Uma pessoa que destroi a propria cidade só pode ser muito looser mesmo. Jamais pode ser considerado um “torcedor”. É assustador ver esse tipo de cena.

    Um beijo

  3. %d 07UTC %B 07UTC %Y às %H:%M 06Mon, 07 Dec 2009 18:43:57 +000057. | Permalink

    Com certeza existem essas mulheres Bia! Assim como existem as mulheres que batem nos maridos/filhos. Mas que isso é muito mais raro do que homens violentos, isso é…
    E também estou eperando punições, algumas já estão sendo dadas, mas ainda parece pouco. 2010 inteiro com jogos sem torcida em casa estaria de bom tamanho para mim, mas infelizmente isso vai conta as necessidades de imprensa então é um pouco utópico acreditar que algo severo será feito… :T

  4. %d 07UTC %B 07UTC %Y às %H:%M 06Mon, 07 Dec 2009 18:44:15 +000015. | Permalink

    Ah, só pra complementar. Conversei com alguns torcedores verdadeiros que presenciaram a cena e afirmaram que era uma minoria de pessoas na guerra. Os torcedores verdadeiros fizeram uma festa bonita, mas que não vai ser lembrada porque a violencia foi muito maior.

Um Trackback

  1. By Instituições masculinas vs Violência – Exército | ClaudiaRegina.com/Blog on %d 25UTC %B 25UTC %Y at %H:%M 10Mon, 25 Jan 2010 10:37:39 +000039.

    [...] escrevi sobre A violência dos homens no futebol comentei sobre as instituições tipicamente masculinas que têm a violência como base. Vamos a [...]

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